A Patinação e o Racismo: Porque precisamos mais que simples boas intensões
|O racismo, de alguma forma, afeta a comunidade de patinadores? Sim, afeta e muito. Isto pode ser uma ferramenta de poder político? Nos dias atuais e, em relação a alguns eventos que estão ocorrendo ao redor do globo sim, pode ser!
Enquanto temos assistido eventos e protestos nos Estados Unidos da América, com grupos tomando posicionamento contra o racismo, temos que observar os fatos e entendê-los de uma maneira mais ampla e de escala global. Entendermos que esta é uma questão séria e planetária e como nós podemos dar apoio, é um ponto crucial para identificarmos o racismo em nossas comunidades.
A morte de George Floyd, uma das últimas vítimas que veio a falecer nas mãos e pela brutalidade de um policial nos Estados Unidos, foi apenas um de tantos outros casos.
A lista americana é longa: Breonna Taylor, Philando Catile, Freddie Gray, Eric Garner e muitos outros perderam suas vidas nestes últimos anos nos EUA. De acordo com algumas pesquisas os Afro-americanos possuem três vezes mais chances de serem mortos pela polícia que os denominados “brancos”, se é que este termo deveria ser usado para definir aqueles com a pele de cor clara.
Enquanto milhares estão protestando, a comunidade de patinadores dos Estados Unidos também se descobriu inserida em um profundo debate sobre a questão do racismo. Ao mesmo tempo na Europa, a turma dos patins parece estar um tanto quanto insegura da maneira como deveriam abordar o assunto, discuti-lo e agir.
Então, o que outras pessoas de outros países poderiam fazer neste caso em especial?
Para começar vamos iniciar estudando um pouco da história da patinação nos EUA. E, ao mesmo tempo, concordar, desde já, que racismo não acontece somente no continente americano, mas em cada país ao redor de nosso planeta e, portanto, também dentro das comunidades em que os patins são uma ferramenta de diversão, hobby ou esportiva.
Enquanto mergulhamos mais fundo na história da patinação o que nos parece é que, em muitos países, esta prática tornou-se popular com a patinação artística de competição, pelo menos nas décadas passadas e que, uma grande parte das pessoas considera esta prática como “apenas um esporte”.
Da mesma maneira que os clubes de Roller Derby mais jovens, estes esportes são de predominância praticados por “brancos”. Uma grande parte de países no mundo hoje não possui sequer um ringue de patinação.
Obviamente que não se aplica a todos. Nos estados Unidos, onde era costume ter-se um ringue em praticamente cada cidade, a patinação foi usada como uma espécie de ferramenta política de poder. Ao longo de todo o século vinte, enquanto Afro-Americanos lutavam contra a segregação racial em lugares como parques de diversão, piscinas públicas e de hotéis e também nos ringues de patinação, não apenas em busca de diversão e alegria, mas como parte de uma luta feroz pela igualdade racial, como a autora americana e professora de história Victoria W. Wolcott discorre em seu livro “Race (corridas), Riots (protestos) and Rooler Coasters (montanhas russas): A Luta Contra a Segregação na América”.
Em 17 de agosto de 1963, Ledger Smith, um Afro-americano de Chicago, iniciou uma jornada monumental sobre patins em direção à capital Washington, para participar de uma palestra de Martin Luther King Jr. Denominada “I Have A Dream” (Eu Tenho Um Sonho). Ele usava uma faixa com o a palavra “Freedom” (liberdade) em seu peito e em suas costas. Foram precisos dez dias para percorrer o trecho Chicago até Washington patinando, até sua chegada ao Memorial de Lincoln.
Em uma entrevista para o “Baltimore Afro-American” em 1963 ele disse que, após ter chegado em Washington, estava “com muitos calos, muitas dores, mas que acreditava estar 700 milhas mais perto da liberdade”.
Um documentário que também explora a influência da patinação nos movimentos de direitos civis é o United Skates. Infelizmente é difícil de obtê-lo na medida em que a HBO bloqueou para o acesso de usuários fora dos Estados Unidos. Estes patinadores continuam a manter a ideia viva nos EUA, mas não tem sidos vistos pelo grande público, fora dos EUA, por um longo tempo.
A patinação é um conector de culturas diferentes
O que é uma busca universal de todas as pessoas é que queremos ser incluídos, queremos pertencer às comunidades. Como quase todos os outros esportes, a prática da patinação pode ser e é uma forma de conexão cultural. Esta é uma das coisas que praticamente todo mundo vai lhe falar a respeito das vantagens da prática como esporte, hobby ou fitness, além do aspecto de que é uma diversão de verdade.
Estas palavras nem sempre refletem a realidade que vivemos, infelizmente. Para nos certificarmos de que afirmações e palavras de ordem não permaneçam apenas como ideias vazias, patinadores de todas as origens precisam estar inclusos, representados e visíveis. E não é apenas uma função das minorias exigirem isto. As palavras, especialmente daquelas pessoas de origem afro e outros grupos que estão marginalizados atualmente, precisam ser ouvidas, até mesmo se isto soar um tanto quanto desconfortável para algumas pessoas que não se sentem diretamente envolvidas.
Alguns casos recentes, em grupos de redes sociais de patinadores, são apenas pequenos exemplos do quanto de trabalho que ainda temos, todos nós, pela frente.
Cada grupo, que se declara de inclusão, carrega pesadas e honrosas responsabilidades. Não vamos esquecer que algumas destas responsabilidade não são simplesmente da comunidades, mas de marcas comerciais e negócios em geral que também devem estar engajados nesta luta. E todos estes patinadores em todo o mundo não são apenas membros de alguma comunidade ou consumidores em potencial.
Com cada nova postagem em uma rede social eles tornam-se propagandistas gratuitos destas empresas. As marcas lucram de todos os patinadores e skatistas de todas as origens, que compram seus equipamentos (obviamente que não é somente um problema exclusivo da patinação).
O racismo e a discriminação não param na porta da frente de um parque ou ringue usado por patinadores
Patinadores exigiam e continuam exigindo por mais representação e visibilidade em certas marcas. Na maioria das vezes isto não acontece publicamente ou apenas em alguma rede social, em “stories” ou “posts” onde apenas um pequeno grupo vai visualizar antes de desaparecer.
Em 2019 o usuário @BIPOCwhoskate levantou um alerta direcionado a todas as marcas de patins, algumas em especial, para pararem com campanhas que claramente tinham cunho discriminatório. A maioria das marcas mencionadas no Instagram prometeram alterações, uma inclusive alterando até mesmo o slogan da marca, alteraram campanhas e anúncios e atenderam às solicitações postadas.
O racismo e a discriminação não para somente na porta de entrada dos parques para patinadores e skatistas ou até mesmo nos grupos de praticantes das modalidades nas redes sociais onde, a priori, todos parecem estar focados em um bem comum para todos.
As pequenas agressões e os comentários implícitos estão presentes o tempo todo. E, mesmo que vocês se considerem aliados das minorias, acreditando que são todos contra o racismo que existe em todo o mundo e possuam boas intenções, isto por si só não irá determinar o fim deste tipo de discriminação sistêmica.
Existem várias outras maneiras de nos envolvermos com este problema mundial
Na medida em que patinadores e skatistas advogam e envolvem-se em protestos como o “Black Lives Matter”, no final de tudo, algumas marcas parecem sentir que é preciso agir.
Enquanto sites e grupos de praticantes estão fazendo uma pausa para melhor se organizarem neste sentido, algumas marcas de patins e skates estão usando suas redes sociais para que os aficionados dos esportes sobre rodas possam compartilhar suas histórias e experiências, no dia a dia de parcelas consideradas minorias.
Uma marca americana conhecida (estamos evitando citar diretamente qualquer marca neste artigo) anuncia o uso de suas plataformas para criar espaços para o debate entre diferentes comunidades, começando já pelas comuns reuniões online e “Lives” de stream, dando apoio e auxílio em projetos de caridade e criando maiores oportunidades para comunidades Afro, Indígenas e pessoas de diferentes etnias, com a participação de artistas, colaborando com diferentes projetos, usando estas plataformas para ampliar seu alcance e celebrar o crescimento e a divulgação de grandes esportistas e praticantes do meio.
“A comunidade de patinadores foi enriquecida e influenciada por grupos minoritários e que lutam diariamente pela inclusão social. As habilidades, talentos e a paixão que estes trazem para as comunidades pede muito pouca coisa de nós. Nós não temos todas as respostas. Mas nós podemos oferecer um veículo para que sejam ouvidos dentro da comunidade de skatistas e patinadores, ao mesmo tempo em que aprendemos com todos eles”. Afirma uma marca de destaque no segmento nos EUA.
Mas, ao mesmo tempo em que você assiste o crescimento dos movimentos nos Estados Unidos e, pensando no que você poderia fazer também, faça uma checagem em sua área, cidade ou na sua vizinhança aqui mesmo no Brasil.
Na verdade existe muita coisa acontecendo bem perto de você. Em memória de George Floyd, em solidariedade com os protestantes dos movimentos nos EUA e para elevar e evidenciar que o racismo é uma realidade em nossa sociedade, alguns movimentos começam a elevar-se nas cidades ao redor da Europa e das Américas.
É fácil encontrar eventos e grupos para participar e ajudar a angariar fundos pela caridade (se sua cidade está ainda sob quarentena devido à COVID-19), existem grupos anunciados de pessoas em busca de suporte aos mais carentes em todas as redes sociais.
Existem muitas fontes e ferramentas disponíveis atualmente, na verdade muito mais do que já tivemos na história humana. Se você fizer sua pesquisa corretamente, provavelmente irá encontrar centenas de organizações e grupos que estão atuando neste meio há muitos anos.
Não é o caso de dizer que o racismo é simplesmente algo ruim ou desagradável. É claro que tudo isto depende de nós, de cada um de nós. Ou permanecemos fechados em nossa bolha ou partimos para uma ação mais efetiva. E sim, algumas vezes você poderá temer ao não encontrar as palavras corretas para se expressar, mas isto é apenas uma das partes de evoluir enquanto seres humanos falhos. E nada disto se compara com o medo e os efeitos que as vítimas do racismo e da discriminação estão experimentando diariamente em suas vidas.
Aonde você pode encontrar informações que podem lhe ajudar na nova empreitada
As redes sociais devem ser seu ponto de partida, pesquise por grupos de suporte, caridade, contrários ao racismo, contrários à discriminação, artistas, patinadores conhecidos, autores e literaturas sobre o tema.
Não se acanhe ao compartilhar em suas redes links de matérias divulgadas em todo o mundo, imagens e frases. Mantenha-se conectado com aqueles que comungam deste mesmo tipo de pensamento. Não tema perder um ou outro seguidor dentro de seus grupos ou redes. Eles apenas estarão deixando bem claro que não desejam envolvimento com o assunto, o que prova, nada mais nada menos, que no fundo não se importam. Quem atualmente não se importa, tem todos os direitos, mas a omissão não é o que irá nos ajudar nesta luta.
Nós na Patins.Com.Br estamos engajados com todos aqueles que buscam uma forma mais humana de convivermos em sociedade e queremos que patinadores de todas as idades também atuem como forma de inclusão social de todos os patinadores de todas as etnias do globo.